Zé da Luz



Zé da Luz é o nome artístico de Severino de Andrade Silva, poeta nascido em Itabaiana - Paraíba, em 1904, e falecido em 1965. 


Ai! Se Sêsse!

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariasse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois dormisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
Que São Pêdo não abrisse
As portas do céu e fosse,
Te dizer qualquer tolice?
E se eu me arriminasse
E tu com eu insistisse,
Pra que eu me arrezolvesse
E a minha faca puxasse,
E o bucho do céu furasse?...
Talvez que nós dois ficasse
Talvez que nós dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virge todas fugisse!


As Flô de Puxinanã
(paródia de 'As Flô de Gerematáia', de Napoleão Menezes)

Três muié ou três irmã,
Três cachorra da molesta,
Eu vi num dia de festa,
No lugar Puxinanã.

A mais véia, a mais robusta
Era mesmo uma tentação!
Mimosa flô do sertão
Que o povo chamava Ogusta.

A segunda, a Guléimina,
Tinha uns ói que ô! maldição!
Matava qualquer cristão
Os oiá dessa menina.

Os ói dela parecia
Duas estrela tremendo,
Se apagando e se acendendo
Em noite de ventania.

A terceira, era Maroca.
Com um corpo muito malfeito.
Mas porém, tinha nos peito
Dois cuzcuz de mandioca.

Dois cuzcuz que, por capricho,
Quando ela passou por eu,
Minhas venta se acendeu
Com o cheiro vindo dos bicho.

Eu inté me atrapaiava,
Sem saber das três irmã
Que eu vi em Puxinanã,
Qual era a que me agradava.

Escolhendo a minha cruz
Pra sair desse embaraço,
Desejei morrer nos braços,
Da dona dos dois cuzcuz!


A Cacimba

Tá vendo aquela cacimba
Lá na beira do riacho,
Em riba da ribanceira,
Que fica assim pru debaixo
De um pé de tamarineira?

Pois um magote de moça
Quase toda manhanzinha,
Forma assim aquela tuia,
Na beira da cacimbinha
Pra tomar banho de cuia.

Eu não sei pru que razão,
As águas dessa nascente,
As águas que ali se vê,
Tem um gosto diferente
Das cacimbas de beber...

As águas da cacimbinha
Tem um gosto mais mió.
Nem salgada, nem insossa...
Tem um gostinho do suó
Do suvaco dessas moça...

Quando eu vejo essa cacimba,
Que espio a minha cara
E a cara torno a espiá,
Naquelas águas claras,
Pego logo a desejá...

... Desejo, pra que negar?
Desejo ser um caçote,
Com dois óio desse tamanho
Pra ver aquele magote
De moça tomando banho!



Sertão em Carne e Osso



No romper das alvorada,
Quando alegre a passarada
Se desmancha em cantoria,
Anunciando ao sertão
A sua ressurreição
No despontar de outro dia!

Nos galho das baraúna
Os magote de graúna
Quando o seu canto desata,
Parece uns vigário véio
Cantando o santo evangéio
Na igreja verde da mata!

Canta nas tarde morena
Quando o sol vai descambando,
Se despedindo da terra,
Beijando a crista da serra,
Deixando o céu tão bonito,
Que o sol redondo e vermêio
Parece, mal comparando,
Um grande chapéu de couro
Na cabeça do infinito!
...

A Terra Caiu no Chão

Visitando o meu sertão
Que tanta grandeza encerra,
Trouxe um punhado de terra
Com a maior satisfação.

Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
De quando eu deixasse o mundo
Levá-lo no meu caixão.

Chegando ao Rio, pensei
Guardá-lo só para mim
E num saquinho de brim
Essa relíquia encerrei!

Com carinho e com cuidado
Numa ripa do telhado
O saquinho pendurei...

Uma doença apanhei
E, vendo bem próxima a morte,
Lembrando as terras do norte,
Do saquinho me lembrei.

Que cruel desilusão!
As traças, sem coração,
Meteram os dentes no saco,
Fizeram um grande buraco
E a terra caiu no chão.

Um comentário:

Paulo Américo Andrade disse...

Muito bom! Excelente iniciativa. Até hoje eu não conhecia Zé da Luz!