segunda-feira, 11 de julho de 2011

Buquê de Flor de Cardeiro



(dance)Vindo com um olhar faceiro
Ela disse: vem, amorzinho,
Abraça bem apertadinho
As flô que colhi do cardeiro;
Fiquei logo mêi cabreiro,
Mas como não sou adivinho
Resolvi chegar juntinho
Para o buquê eu tocá-lo,
Mas não era grosso o talo
Nem tinha aqueles espinho.


Meu medo é que ela imitasse
O que sua mãe já fizera
Quando casada inda era,
Pois mandou que alguém cortasse
E pro seu marido mandasse
Um xique-xique florido,
Com um buquê bem parecido,
Pra que não desconfiasse,
E ele assim que o abraçasse
Desejasse ter morrido...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Na Sombra de Zé da Luz II

(dance)Vida dura que nem osso
Tudo o que eu como é insosso
De carne só rôo o pescoço
Da fruta só chupo o caroço;
Fiquei velho, e nem fui moço
Por isso me cansa esse esforço
De ir ter com as migalhas no fosso
Que pra tê-las me contorço
Ou isso ou não tem almoço;
De tão magro eu todo me torço
Quem me olha já vê o meu dorso
Que de perfil só tô o esboço;
E o que me deixa em alvoroço
Depois que engulo uns troço
É ver todo esse colosso
Cair no intestino grosso
Pra ir dar no fundo do poço.

Patativa do Assaré gostava de contar esta historinha para as crianças:

Fico muito triste, muito triste fico,
Quando triste penso no meu tico-tico,
Porque de alimento eu não tinha um tico
E o pobre com fome, quando abria o bico,
Eu tinha vontade de ser muito rico,
Pra não ver sofrendo o meu tico-tico,
Até que uma noite ouvi um fuxico,
Quando olhei pra perto do pilão de angico,
Vi o gato preto do seu Manuel Chico
Rosnando e comendo o meu tico-tico...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Martelo Agalopado I

Eu vivo esse drama da estiagem
Desde que mãe botou-me no peito;
Já minhas mãos roçavam esse eito
Rachado da seca nos seios da pagem;
Fiz calos nas mãos já nessa passagem
Em vão apertando o veio da mama;
Há muito eu vivo em terra sem lama
Roçando seu colo com mãos calejadas:
Nada de leite em palmas ressecadas,
Nem uma lágrima que orvalhe uma rama.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Maria e a sua Fitinha


De repente, ela surgiu
E entre nós ela é bendita
Maria Eduarda Ferreira
De Lyra é moça bonita
Há cinco anos nasceu
Em nosso lar ela habita.

Ela veio juntar-se
A Victor Ulisses, o irmão
A quem, antes de dormir
Pede também sua bênção
E gosta tanto de servir
Que ela é toda coração.

Maria Eduarda chegou
E a família acredita
Que seu amor renovou
A fé que nos habilita
A ver que o divino milagre
Em prol da vida milita.

Ela nos dá alegria
É uma menina que agita
Até o assovio do pai
Tirando onda, ela imita
Mas não aperreie ela não
Que ela se zanga e lhe grita.

Algo ela herdou de sua mãe
Também chamada Maria:
O gênio e o desenho dos olhos,
Carisma e sabedoria
Que quando quer uma coisa
Pede com voz bem macia.

E tudo que ela me pede
Com muito prazer eu lhe dou
Se está com saudade de mim
Com mais saudade eu estou
Se digo que vou sair
Ela diz: --- espera, já vou.

Maria Eduarda é assim
Um tantinho vaidosa
Gosta de bem se vestir
É uma menina charmosa
E é também divertida
Doce, meiga e carinhosa.

Ela é pequenininha
Mas seu jeitinho seduz
A gente estando com ela
É mesmo que estar com Jesus.
Pois sem saber nos ajuda
A carregar nossa cruz.

Por isso é que às vezes
Ela parece cansar
Então sua malcriadez
Não era pra se castigar
Pois ajuda a levar u’a cruz
Que não aguenta levar.

Criança nessa idade
É apenas para brincar
De boneca com as amiguinhas
Correr, cantar e pular
Não vou mais pôr de castigo
Maria naquele sofá.

De hoje em diante só quero
Ver minha Maria sorrir
Ela e Victor dão sentido
Ao nosso pobre existir
Deus proteja eles dois
E faça-os no amor se unir!

Meu coração que, no peito,
Era uma caixa de brita
Victor vindo, obrou o milagre
De transformá-lo em pepita
Pra depois sair do peito
Como Maria --- a bonita.

Quero guardar na lembrança
Tudo que me reabilita:
O olhar de Maria Eduarda
Quando, com sono, me fita
Chupando, inocente, o dedinho
Pegando um laço de fita.

Saiba, filhinha, que embora
Sem título vão de nobreza
Ou posses de joias reais,
Para nós, a tua realeza
Está em tu’alma bondosa,
Pequena bela princesa!

Saúde, paz e as bênçãos
Do Amor Divino, rogamos
Pra Victor e Maria Eduarda
A quem, por Cristo, oramos
Que sejam do bem e felizes
Pois todos nós os amamos!

Glosas IV

(dance)Tomei umas doses de cana
Vodka, conhaque e uísque
E quem for doido que risque
Fósforo nessa cabana
Pois é grande a carraspana
E só tem álcool no ar
Hoje bebo até me lascar
Virando os litros sozinho
Tanto faz, garçon, qualquer vinho
Se é pra depois vomitar!

Já tomei toda a bebida
Dos alambiques da feira
Da destilada e brejeira
Da peba à mais conhecida
Não importa qual a pedida
Só quero me embriagar
De beber vou me acabar
Até fechar o barzinho
Tanto faz, garçon, qualquer vinho
Se é pra depois vomitar!

Perdi até a conta
De quantos copos virei
Vazias as garrafas deixei
Que a cabeça anda já tonta
Mas a calçada está pronta
Que é nela que eu vou tombar
Não antes de todas tomar
Em cada bar do caminho
Tanto faz, garçon, qualquer vinho
Se é pra depois vomitar!

Todos bebem em todo canto
Noé disse: ‘o vinho criei’
E o padre: ‘tomai e bebei’
Cuidado apenas com o tanto
Apois dou uma pro santo
Só não sei me controlar
Que vinho adoça o paladar
E adega boa é a do vizinho
Tanto faz, garçon, qualquer vinho
Se é pra depois vomitar!

Vinho tinto ou branco, na chuva
Tomo até seco ou doce
Só não diga que acabou-se
Que vais pôr álcool na uva
Macerar na mão, sem luva
Até o caldo apurar
Que só quero me embebedar
Cerveja é bom com colarinho
Tanto faz, garçon, qualquer vinho
Se é pra depois vomitar!

Consta no espetacular livro POETAS ENCANTADORES do poeta e repentista Zé de Cazuza, que é do cantador repentista Pinto do Monteiro, poeta nascido em Monteiro - PB, em 1896, e falecido em 1990, esta décima glosada de forma magistral:

Para falar sobre a farra
Não é bom que eu me afoite,
Entrava à boca da noite,
Saía ao quebrar da barra.
Fui mais do que almanjarra,
Pra moer cana no dente,
Quando eu bebia aguardente,
Cerveja, vinho e quinado,
Se já gozei no passado,
Posso sofrer no presente.